Sem dor, ele disse
Eu disse, mentira!
Como pode um poema nascer
Sem dor?!
Os poemas nascem do amor, ele disse
Mas como o amor correspondido na felicidade
Tem tempo a parir poemas!?
O amor dá conta, ele
disse
Que amor é esse, pois, que anda sumido?!
Não sei, mas ele pariu um poema hoje, respondeu
Parir um poema sem dor, então, é coisa rara!
Retruquei
O poema nasceu, Nicolau!
É hora de celebrar
Só assim, parindo filhos, o amor há de surgir
E proliferar
Tu tens razão, ainda que o amor não sobreviva na razão
Estás a pensar, por isso, não dás vez ao amor
Quando souberes de qual matéria prima é feito o amor
Ele há de te engravidar também, disse
Será que eu posso também escrever um poema de amor
Sem dor?!
Perguntei
Hás primeiro de trazer a ti um sentimento diferente
Quem sabe ele te dirá!
Tens razão, que a razão é sempre tua companheira,
Ao dizer que a poesia pode nascer da dor
E que há amor na dor
Mas o amor também dá conta disso
Mas de tantos em tantos, é verdade,
Há de nascer poucos filhos pródigos
Que hão de trazer de volta à tua casa
Um amor sem dor
Quanto ele viverá, eu não sei
Mas faz dele o teu poema, registra-o
Como a foto do teu filho criança
E guarda para ti como lembrança
O amor é raro
Por isso aprendemos a parir poemas
Para celebrá-lo
Ressaltou
E eu, calei