sábado, 26 de fevereiro de 2011

Zerado

eu
que olho sempre
o mesmo horizonte
espero sempre
algo novo
eu
que sangro no momento
observo
reflexivo, redundante
não vejo nada
estou cego
eu tenho sono
eu que não sou eu
morro, nato
e mato o outro em mim
e morro de novo
eu, sempre eu
eu mesmo!

não vejo nada
estou cego
eu tenho sono
eu que não sou eu
morro!
mato!
mato o outro em mim
zerado de novo

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

nosso poema

nosso poema está incompleto
a cada palavra eu verso
algo se perde
outro se ganha
outrossim, perdeu-se
nosostros pelos bosques
os rotos bares da minha vida

nosso poema segredou
a cada sílaba eu morro
a cada verso eu pago
o preço de correr sozinho
pelos descaminhos da vida
nosotros pelos muros
os rotos livros que contam a minha história

nosso poema se perdeu
a cada página eu seco
o vento seca as minhas lágrimas
o ouro do meu viver é tolo
pelos teus cantos
nosotros pelo desejo
os rotos beijos que te dei


*dezembro de 2009

a espera do sonho

minha ansiedade revira a noite
vermelhos
meus olhos viram fora da órbita
reviram as minhas entranhas
sonho
acordo
vejo tua pele branca refletida no espelho do teto
memórias
em que beijo tuas pernas como quem tem a noite inteira
um centímetro de cada vez
sem repetir o mesmo pedaço, eu te como
como quem tem a vida
te devoro
como quem não tem mais nada
provoco a inveja
provocas o ciúme
que ilusão deliciosa
mas não importa porque te amo
no espaço do nosso vão
onde nos encontramos por acaso
por ironia do desejo
nos enlevos das tuas curvas
nas fotografias superexpostas da tua pele
procuro meu recado
para fazer amor
o que é preciso?
dois corpos, uma mentira
sei que há uma só verdade
no vão de nós dois
como na água da piscina
há algo submerso prestes a emergir
acordo!
quero dormir, mas o sono não vem
os versos me levam para onde eu possa refletir
não pergunto quanto tempo temos
na hora não há razão que possa dizer
não é razão para decidir
os amores sempre vencem pelo cansaço
depois do gozo
o corpo pede descanso
acalmam as entranhas e voltam os olhos na órbita
e, então, o sonho vem



*Agosto de 2008

Ao pé do ouvido

Quero ouvir tua canção sussurrar
O gosto do desejo que é amar
Sob o luar, não faz sentido
Reclamar a situação do amor
Ora, por favor!
Permita-me dizer
O que todo mundo quer falar
Mas esclarecer
Não é fácil quando se está
Intimidado!
Não quero o meu coração na mão
De quem duvida da situação
Do que o amor consolida
De paixão em paixão
Meu amor, quero te ouvir falar!
E quero dizer que amar
É possível, e é compreensível
Que em tantas quantas
Mal dormidas noites
Perdidas!
De amores mal sucedidos
Eu e você possamos ter medo de dizer
E de ser
Mas não é possível, por favor!
Que com tanto ardor
Possamos nos perder
Sem ter a chance de dizer mais uma vez
Ao pé do ouvido
“Amor, fica comigo”





*Escrito em fevereiro de 2011

aqui o fogo

e aqui o fogo é puro
e não resiste ao toque
já foi fátuo flagelo

e aqui já o fogo é brando
o olho segue o que nos cega
e o que se vê não tem sossego

e aqui já o fogo é frágil
e o traço que brinca
não é o risco que se corre

e aqui já o fogo arde
e já não se escolhe
o que se colhe

vento no fogo não faz canção
aqui enfim o fogo jaz
é dor, amor
no fim o fogo é cinza, fumaça e carvão